Home

poesia_net

ANTÓNIO GEDEÃO

POEMA DA PRAÇA PÚBLICA

Pobre de quem procura e não encontra.
Infeliz de quem espera e não alcança.

Movem-se os olhos,
apuram-se os ouvidos,
e quando as mãos se agitam numa esperança
afundam-se nos bolsos e emudecem.

A  máquina da História, que fabrica
os dias do futuro
com a sucata das horas do presente,
alimenta-se de ecos, de palavras,
de vozes fátuas, de melífluos cantos,
do bafo morno das gargantas pródigas
em bordados, em rendas, em matizes.

Olho em redor
e vejo os homens todos separados
em grupos, cada um da sua cor.
São vermelhos, são verdes, são cinzentos,
alguns são amarelos como o oiro,
todos na mesma praça, aglomerados,
mas cada um voltado ao seu quadrante.

As vozes interferem-se, e o conjunto
é um estentor de vozes,
de baixos, de barítonos, de tenores,
sopranos e contraltos.

Desço também à praça
e nela me diluo e me confundo.
E aqui estou. Por aqui deambulando,
ouvindo e observando
o próximo e o distante,
perscrutando,
tentando adivinhar o pensamento alheio,
olhos postos nos olhos,
procurando,
buscando aqueles cujas mentiras
mais se aproximam das minhas verdades.

             

 NOVOS POEMAS PÓSTUMOS
1990

António GEDEÃO
Poemas Escolhidos
Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997
Cota: 821.134.3-1 GED/POE

Anúncios