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O pó de Roberto Bolaño

No final de 2014 saiu no Babelia (suplemento cultural do El Pais) um artigo em que eram colocadas algumas questões a grandes figuras do mundo literário, questões essas que se prendiam com o estado actual da escrita literária, e onde não faltaram as opiniões mais polémicas, de entre as quais se destaca a de Harold Bloom – para muitos considerado o expoente máximo da crítica literária – que lamentava o facto de actualmente não existir nenhum escritor cujo trabalho comportasse o inebriante aroma da novidade. Vozes ouve que de imediato se insurgiram perante tamanha injustiça para com autores que têm vindo a desenvolver um trabalho de ruptura com muito do que se escreveu no passado, não só em termos temáticos mas também técnicos, e vários nomes foram lançados para refutar a opinião do crítico e académico norte-americano. Estranhamente – ou nem tanto assim tendo em conta o facto de Bolaño já não estar entre os vivos – o nome do escritor chileno que aqui nos traz hoje não foi recordado, algo que, para quem tem acompanhado a sua obra, assume contornos de inconcebível esquecimento.9789897220883

Roberto Bolaño foi um escritor de muitas pátrias. Nasceu no Chile, viveu um largo período no México até se ter mudado para Blanes, uma pequena povoação perto de Barcelona. Mas é da cultura mexicana que vivem os seus livros cujos enredos passam, invariavelmente, por aquele país da América central. “Amuleto”, uma das suas obras com tradução mais recente, não foge à regra. Nele conhecemos Auxilio Lacouture que nos irá narrar um pouco da sua experiência no seio de personagens importantes da vida cultural mexicana. Ao longo dos dias que permanece encerrada na casa-de-banho da Faculdade de filosofia e letras da Cidade do México, depois de ver o recinto invadido pelo exército, Auxilio traça um plano geral da sua estadia naquele país, onde conhece gente cuja existência só é possível graças ao génio de Bolaño. E aqui reconhecemos personagens que já conhecíamos de outros livros, como é o caso de Arturo Belano, para muitos considerado o alter-ego do escritor chileno, provando a indissociabilidade existente entre os seus livros.

9789726957645“ Às vezes ponho-me a pensar que tanto os meus livros como as minhas figurinhas me acompanham de certa maneira. Mas como é que me podem acompanhar?, pergunto-me. Flutuam à minha volta? Flutuam sobre a minha cabeça? Os livros e as figurinhas que fui perdendo transformaram-se no ar da Cidade do México? Transformaram-se na cinza que percorre esta cidade de norte a sul e de leste a oeste? Talvez. A noite escura da alma avança pelas ruas da Cidade do México varrendo tudo. Já mal se ouvem canções, aqui, onde antes tudo era uma canção.”

Nas palavras saídas da boca de Auxilio reconhecemos as ideias de Bolaño. É desta cinza que são feitos os seus livros; uma cinza que se vai espalhando ao sabor do texto criando pequenos núcleos temáticos que julgaríamos impossíveis no início mas que acabam por ser um constituinte natural do absurdo que pontua os seus livros. Em Bolaño não há julgamentos, não há distinção entre normal e anormal; os seus relatos parecem desconhecer esta oposição mantendo-se numa apaziguadora neutralidade. Bolaño sustenta a sua escrita no desvendar do absurdo. É esta a ignição dos seus textos e é a superior capacidade de a trabalhar que o torna um escritor autêntico, de uma autenticidade que é rara na literatura pós-moderna, como foi a de Kafka quando Max Brod9789725648162 decidiu não lhe dar ouvidos e revelar ao mundo a sua genialidade. E as “pontas soltas” que sobram no final da leitura só são passíveis de se compreenderem olhando a obra como um todo, um grande corpus textual cujo conteúdo temático é infinito. Não há nada que se possa dizer de uma obra de Bolaño que não seja verdade em qualquer outra. Só partindo desta premissa compreenderemos as intrusões de personagens, de temas, de lugares que parecem afetar qualquer texto, sendo mais fácil percebê-lo nos romances mais longos, como “Os detectives selvagens” ou “2666”.

Roberto Bolaño é fundamental para se perceber um pouco do que é isso da nova literatura. É um tiro certeiro no coração da frase de Harold Bloom de que nada de novo se encontra na literatura actual. E não sendo fácil conhecer tudo o que de novo se vai fazendo, está aqui – em “Amuleto” ou em qualquer outro – um excelente ponto de partida.

Crónica de Vicente Fino

Obras de Roberto Bolano na BPE

821.134.2(7/8)-3 BOL/NOC

Nocturno chileno / Roberto Bolaño ; trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues . – Lisboa : Gótica, 2003 . – 150 p. ; 23 cm. – (Cavalo de Tróia)
ISBN 972-792-047-0

UFVG 821.134.2 (7/8)-3 BOL/DIS
BPE 821.134.2(83)-31 BOL/DIS

Os dissabores do verdadeiro polícia / Roberto Bolaño ; trad. Cristina Rodriguez, Artur Guerra ; rev. João Assis Gomes . – Lisboa : Quetzal, 2011 . – 278, [3] p. ; 24 cm. – (Série américas. Roberto Bolaño)
Tít. orig.: Los sinsabores del verdadero policía
ISBN 978-972-564-932-9

BPE 821.134.2(83)-31 BOL/AMU

Amuleto / Roberto Bolaño ; trad. Cristina Rodriguez, Artur Guerra ; rev. João Assis Gomes . – Lisboa : Quetzal, 2013 . – 139, [5] p. ; 23 cm. – (Série américas)
ISBN 978-989-722-088-3

UFMH 821.134.2(83)-31 BOL/DOI
BPE 821.134.2(83)-31 BOL/DOI

2666 / Roberto Bolaño ; trad. Cristina Rodriguez, Artur Guerra ; rev. João Assis Gomes . – Lisboa : Quetzal, imp. 2009 . – 1030, [2] p. ; 23 cm. – (Série américas.. Roberto Bolaño)
ISBN 978-972-564-816-2

BPE-BM 821.134.2(7/8)-3 BOL/DET
BPE 821.134.2(7/8)-3 BOL/DET
UFMH  821.134.2(8)-31 BOL/DET

Os detectives selvagens / Roberto Bolaño ; trad. Miranda das Neves . – Lisboa : Teorema, D.L. 208 . – 511 p
Trad. de: Los detectives salvages
ISBN 978-972-695-764-5

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