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A arquitectura de um romance

“Observe-se a boca, pensava ele: um rasgão na pele do rosto com as bordas feitas de carne almofadada e escura, e depois, o horror!: água e espuma, um pedaço de carne como um tentáculo de polvo, cravado de orifícios e sensores, preso por freios de cartilagem, a agitar-se contra fragmentos de marfim enterrados em carne molhada e vermelha. No topo, uma espécie de abóbada gótica feita de pele humana distendida, ao fundo um abismo húmido e quente no meio do qual um pingente sanguinolento freme como o papo de um lagarto.”

“Hotel”, de Paulo Varela Gomes, não é um livro fácil, e o rigor da sua escrita tem alguma culpa: o resto tem que ver com o hábito perdido de ler excelentes descrições.

Joaquim Heliodoro, depois de ganhar o euromilhões, decide comprar um palacete e transformá-lo num hotel. As dificuldades, à partida, seriam muitas, dado tratar-se de um edifício construído algures entre 1898 e 1901. Para tal, conta com a ajuda de um arquitecto com o qual tem algumas desavenças e em quem não confia para partilhar o segredo ao serviço do seu voyerismo: uma passagem secreta que o leva a um dos mais requisitados, e não menos admirados, quartos. Em parte devido ao enorme espelho que o mesmo contém e que o torna mais apto a um quarto de bordel. Mas a atracção daquele espelho irá fazer com que Joaquim Heliodoro consiga ver satisfeitas as necessidades a que o seu distúrbio (escopofilia) o obriga.

Para além do sexo, que domina a maior parte do romance e que o autor manobra com perícia, parece-nos ser a arquitectura que o move: “Hotel” contém descrições que parecem saídas directamente de um qualquer manual, e não falo apenas das descrições do edifício que dá nome ao livro, falo, igualmente, das descrições do próprio corpo humano, como disso é exemplo o excerto com que iniciei este texto, ou as cerca de quatro páginas que o autor utiliza para nos dar a conhecer o pénis de Heliodoro.

Alguns críticos escolheram o sexo como móbil do romance. É verdade, mas não há como ficar indiferente à arquitectura do texto, ao modo como a estrutura parece ter sido alvo de inúmeras tentativa/erro até atingir uma quase perfeição. Tudo neste livro está no sítio certo, e mesmo que o início possa apresentar algumas dificuldades ao leitor mais teimoso, que permanecem até que se perceba que as descrições não são mero exercício de estilo e que servem o propósito do livro, com o correr das páginas entramos no texto e jamais seremos tentados a abandoná-lo.

E que dizer da quantidade de transcrições de outras obras literárias? Será apenas mais um caso de metaliteratura ou estaremos perante um autor cujo conhecimento literário e histórico está ao serviço da sua arte? Escritor que tem no jornalismo a sua ocupação profissional, Paulo Varela Gomes é, igualmente, um cronista de excelência onde lhe são reconhecidas algumas das características que em “Hotel” ganham outro brilho.

Uma palavra para as flores que surgem bem perto do fim do livro e que, uma vez mais, o autor descreve com detalhe arquitectónico, lançando-as para um final que parecia caminhar para o abrupto mas que acaba por ser o ponto de ligação entre todo o romance.

 

Crónica de Vicente Fino

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