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Escrever o Alentejo
“Os demónios de Álvaro Cobra”, – assim como “Mal nascer” – de Carlos Campaniço, refunda a prosa sobre o (e no) Alentejo como há muito não se via, talvez desde o neo-realismo e autores como Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues e o tão esquecido Antunes da Silva. Outros há que, não obstante o facto de serem alentejanos, não ousam passar para a sua escrita esse saber, o da narrativa agreste, seca e carregada de sofrimento, como é o caso do tão celebrado José Luís Peixoto. Ou seja, a circunstância de se ser de uma determinada região pode não estar intimamente ligada com o estilo literário pelo qual, mais do que se optar, se acaba por adoptar, como um caminho cujo final se busca ad eternum.

Carlos Campaniço, finalista do prémio Leya 2013, é uma “nova” voz alentejana no deserto que tem sido a literatura daqui nos últimos anos, se nos reportarmos aos autores que elevam a particularidade de se ser (e querer ser) alentejano ao nível mais elevado. Herdeiro do linguajar que tornou célebres escritores que aproveitaram o neo-realismo e a revolução política (e cultural, e social, e económica, e…) para darem a conhecer um pouco do que é isso de ser-se alentejano, das dificuldades que passam muitos dos que por aqui nascem, crescem e fazem vida.

Em “Demónios de Álvaro Cobra” acompanhamos as peripécias que envolvem a vida de Álvaro e de mais umas quantas personagens idiossincráticas, envoltas na atmosfera sonhadora de um realismo que se afasta das convenções e se acerca ao realismo mágico de uma América do Sul perpetuada nas ardentes páginas de García Márquez. Na aldeia de Medinas, algures entalada entre Moura, Beja, Serpa e Vidigueira, há judeus, árabes e cristãos numa relação intercultural mediada pelas particularidades dos medinenses, na pessoa de Álvaro Cobra cuja personalidade ambivalente desperta as mais variadas opiniões. A continuar a senda da família Cobra surge, mais tarde, Vicente, filho de Álvaro, que acaba por enamorar-se pela mulher errada, uma judia que cedo percebe não ser Vicente o homem certo para os preceitos de uma família imbuída nas suas tradições religiosas. É um livro trágico e não é raro maldizermos o autor por tão evidentes maltratos aos protagonistas, seres permanentemente acariciados pela má sorte. Surge, neste livro, um conjunto de personagens merecedoras de novas aventuras e espaço onde o autor as possa desenvolver. E talvez esteja aí o único amargo de boca resultante da sua leitura; em tudo o mais é um livro que tem uma boa estrutura, perfeitamente capaz de suster um enredo bastante rico, à imagem da sua obra mais recente, “Mal nascer”.

Campaniço é um contador de histórias, um excelente contador de histórias, e isso vê-se no narrar exímio nos tempos, nas descrições e nas qualidades literárias de cada personagem. Com uma linguagem que trabalha um léxico arcaico e plenamente alentejano, sem ser datada, o livro lá vai avançando, sem soluços e sem tempos mortos, alimentando-nos desse linguajar tão agreste quanto o são as planícies alentejanas. Um autor que herda do realismo o seu modo de narrar, embora sem o artifício retórico das (longas) descrições, tornando-o mais próximo daquilo a que se ousa chamar de literatura contemporânea. Uma obra que volta a abrir esse infindável campo de influências e inspirações que constitui o Alentejo e que tem em Manuel da Fonseca uma influência ali tão à mão. E quem tem influências daquelas só pode aspirar a vôos mais altos.

Crónica de Vicente Fino

 

Obras de Carlos Campaniço na Rede de Bibliotecas de Évora:

BPE 821.134.3-31 CAM/DEM

Campaniço, Carlos
Os demónios de Álvaro Cobra / Carlos Campaniço . – Alfragide : Teorema, 2013 . – 238 p. ; 24 cm. – (Literatura lusófona)
ISBN 978-972-474-617-3
Literatura portuguesa
Romance

BPE 821.134.3-31 CAM/MAL
UFMH 821.134.3-31 CAM/MAL

Campaniço, Carlos
Mal nascer / Carlos Campaniço . – Alfragide : Casa das Letras, 2014 . – 191 p. ; 24 cm.
ISBN 978-972-46-2233-0
Literatura portuguesa
Romance

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